O serviço notarial em Mato Grosso deve encerrar 2025 com arrecadação recorde. Somente nos oito primeiros meses do ano, as dez serventias mais lucrativas, localizadas em municípios como Cuiabá, Rondonópolis, Sinop e Lucas do Rio Verde, faturaram cerca de R$ 165 milhões. O 6º Ofício da Capital lidera o ranking, com R$ 23,5 milhões, seguido pelo 1º Ofício de Rondonópolis e o de Sinop, ambos com R$ 22,9 milhões.
Apesar dos números elevados, a realidade enfrentada pelos usuários dos cartórios nem sempre é motivo de comemoração. Dados da Ouvidoria do Tribunal de Justiça de Mato Grosso apontam reclamações frequentes relacionadas a cobranças acima do esperado, demora na expedição de documentos, atrasos na baixa de protestos e falhas no atendimento presencial e por telefone.
Um exemplo é uma petição apresentada ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), na qual um cidadão afirma aguardar há mais de dez anos por uma atualização justa na tabela de preços do foro extrajudicial. Segundo os cálculos anexados ao pedido, a correção parcial aplicada às custas teria criado distorções que encarecem documentos simples — como escrituras de imóveis, que deveriam custar cerca de R$ 3,6 mil, mas chegam a R$ 5,7 mil em alguns casos.
Embora os cartórios sejam serviços públicos regulamentados pelo Judiciário e operem com tabelas tarifárias oficiais, a prática mostra que arrecadação recorde não tem significado, necessariamente, melhor atendimento ou acessibilidade. Para muitos cidadãos, o termo “cartório campeão” contrasta com filas demoradas, falta de orientação e custos elevados para demandas básicas do dia a dia.
Especialistas destacam que a alta arrecadação deveria vir acompanhada de medidas de modernização, mais transparência e maior sensibilidade às necessidades da população, garantindo que a prestação de um serviço essencial não se transforme em obstáculo para o exercício de direitos.