O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um inquérito civil para investigar falhas no atendimento à saúde de indígenas Xavantes na Terra Indígena Marãiwatsédé, localizada no município de Alto Boa Vista, a aproximadamente 500 km de Barra do Garças (MT). A medida foi adotada após uma reunião virtual realizada no dia 27 de maio, que contou com a participação de lideranças indígenas, representantes do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e membros do próprio MPF.
A investigação teve início após denúncias apontarem a morte de ao menos quatro crianças Xavantes somente em 2025, possivelmente em decorrência da precariedade no serviço de saúde oferecido à comunidade. Um dos casos mais recentes foi o de uma menina de 13 anos, citado em nota pública do Cimi divulgada em maio.
Segundo a denúncia, a única caminhonete à disposição da comunidade para transporte de pacientes está em péssimas condições mecânicas, inviabilizando o deslocamento em situações de urgência — especialmente diante das grandes distâncias e dificuldade de acesso na região.
Durante a reunião, os líderes indígenas Damião Paridzané e Carolina Rewaptu relataram a ausência de transporte sanitário, profissionais de saúde e medicamentos. “Estamos morrendo e esquecidos”, desabafou o cacique.
O MPF considera que a população indígena da TI Marãiwatsédé vive em grave situação de vulnerabilidade, e determinou o aprofundamento das investigações sobre a atuação da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e do Distrito Sanitário Especial Indígena Xavante (Dsei Xavante), além de solicitar informações às secretarias de saúde dos municípios da região.
Entre os pontos exigidos estão: número de profissionais em atividade, disponibilidade e estado de veículos, cronograma de visitas, treinamentos e estratégias de comunicação com os povos indígenas.
Embora o inquérito mencione quatro mortes, há suspeitas de subnotificação — o que pode revelar um cenário ainda mais crítico. As apurações seguem em andamento, com novas oitivas sendo realizadas.
A Terra Indígena Marãiwatsédé é um dos territórios com histórico de retomada mais emblemáticos do país e segue enfrentando desafios relacionados à garantia de direitos básicos. O caso evidencia não apenas a negligência no atendimento em saúde, mas também a persistente invisibilização de comunidades indígenas, cujas vidas continuam sendo colocadas em risco pela ausência do Estado.
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