Depois de mais de um ano de separação e de uma batalha judicial que emocionou Mato Grosso e repercutiu em todo o país, o macaco-prego Guerreiro finalmente deverá voltar para casa e ser devolvido à tutela do médico cirurgião Luiz Morato, em Barra do Garças-MT.
O desfecho favorável aconteceu na quarta-feira (3/6), quando os desembargadores federais Katia Balbino de Carvalho Ferreira, Flávio Jardim e João Carlos Mayer, integrantes da 6ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), decidiram por unanimidade pela devolução do animal à família que o resgatou, cuidou e garantiu sua sobrevivência desde os primeiros dias de vida.
A decisão representa uma importante vitória para os defensores da causa animal e encerra um dos casos de maior repercussão envolvendo proteção animal e guarda de fauna silvestre em Mato Grosso.
Durante o julgamento, a relatora do processo, desembargadora federal Katia Balbino, destacou que o macaco possui uma pata amputada e não possui qualquer condição de retornar à natureza, motivo pelo qual mantê-lo afastado da família seria uma espécie de “prisão perpétua”.
Segundo ela, o melhor para o bem-estar do animal é permanecer ao lado das pessoas que demonstraram carinho, responsabilidade e dedicação durante todo o período de recuperação.
Outro momento que chamou atenção durante o julgamento foi a citação feita pelo desembargador João Carlos Mayer sobre a cartinha enviada pela menina Isabella, filha do médico Luiz Morato. No texto, a criança relatava o amor da família pelo macaquinho e pedia que o Guerreiro pudesse voltar para casa. O documento acabou sensibilizando os magistrados durante a análise do caso.
A decisão deverá agora ser encaminhada à juíza federal Dalila de Castro Riedel, responsável por determinar oficialmente o cumprimento da devolução do animal.
O caso do Guerreiro ganhou repercussão nacional após o Ibama apreender o macaco no dia 30 de maio de 2025, em Barra do Garças. A ação gerou forte comoção popular e mobilizou campanhas nas redes sociais com frases como “Soltem o Guerreiro”.
Mesmo após o assunto sair do noticiário nacional, Luiz Morato continuou lutando judicialmente para recuperar o animal.
A história começou há cerca de um ano e meio, quando o médico encontrou o macaco-prego recém-nascido agonizando próximo a um rio, nas proximidades de sua chácara.
O animal estava extremamente debilitado, com uma das patas amputadas, infestada de larvas e praticamente sem forças para sobreviver.
“Peguei ele com cerca de 120 gramas. A pata estava tomada de bichos. Achei que ele não sobreviveria, mas tentei tudo o que pude”, relembrou Morato.
Com ajuda de uma amiga neonatologista e utilizando sua experiência médica, o cirurgião realizou curativos, retirou as larvas e iniciou o tratamento intensivo do filhote, que conseguiu sobreviver e recebeu o nome de Guerreiro.
Com o passar do tempo, o macaquinho passou a fazer parte da rotina e da estrutura familiar.
“Nós adaptamos a casa para ele. A planta da nova residência foi modificada para incluir um viveiro para o Guerreiro. Ele era o xodó da minha filha. Dormia com ela. Virou nosso filho mais novo”, contou emocionado.
O médico afirmou ainda que buscou regularizar a guarda do animal junto à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), conseguindo autorização provisória, implantação de chip, laudos veterinários e acompanhamento técnico enquanto aguardava a guarda definitiva.
No entanto, meses depois, o Ibama entrou na Justiça e realizou a apreensão do animal.
Segundo Morato, os agentes chegaram fortemente armados à residência para cumprir a ordem judicial.
“Entraram como se estivessem combatendo tráfico de animais. Minha filha ficou em choque. Levaram o Guerreiro e nem informaram oficialmente para onde ele seria levado”, afirmou.
O Ibama alegava exposição indevida do animal nas redes sociais, fato negado pelo médico.
“Nunca usei o Guerreiro para aparecer ou ganhar dinheiro. Ele era parte da nossa família”, declarou.
A última informação recebida pela família era de que Guerreiro estaria no Setas, em Brasília, unidade responsável por receber animais apreendidos.
Desde o início do caso, moradores de Barra do Garças, defensores da causa animal e milhares de pessoas nas redes sociais passaram a defender a permanência do macaco com a família, justamente pelo fato do animal possuir deficiência física e depender de cuidados especiais.
Para muitos apoiadores, devolver Guerreiro à natureza seria praticamente condená-lo à morte, já que ele se tornaria presa fácil para predadores e teria enorme dificuldade de sobrevivência sem uma das patas.
Após a decisão favorável da Justiça Federal, Luiz Morato publicou um vídeo emocionado agradecendo aos advogados, à Justiça Federal e principalmente às pessoas que nunca deixaram de apoiar a causa do Guerreiro.
A expectativa agora é de que o macaco-prego seja devolvido nos próximos dias para a família que o salvou da morte e cuidou dele com amor desde filhote.